Calendário de tratamentos da oliveira em Portugal
No calendário de tratamentos da oliveira há dois momentos que valem mais do que todos os outros. O primeiro é o cobre depois da apanha, antes das chuvas fortes de inverno. O segundo é o cobre antes da floração, na primavera. Pelo meio, tratas as feridas da poda e vais vigiando a mosca, a traça e a cochonilha. Se fizeres isto bem, a oliveira do quintal raramente te dá sustos.
A boa notícia é que a oliveira é das árvores mais rijas que podes ter. A menos boa é que quase todos os tratamentos são preventivos. Quando vês as manchas do olho-de-pavão ou a azeitona podre da gafa, o fungo já entrou há semanas. Por isso este guia é um calendário: diz-te o que fazer em cada época, antes de o problema aparecer.
Resposta rápida: o que fazer à oliveira em cada época
- Depois da apanha (novembro–dezembro): aplica cobre em toda a copa, em dia seco e antes das chuvas fortes, contra o olho-de-pavão e a gafa e para proteger as feridas do varejo. Tira as azeitonas secas que ficaram presas na árvore.
- Inverno (dezembro–fevereiro): observa e limpa. Nas zonas húmidas, só repetes o cobre se o aviso da tua DRAP o indicar.
- Poda (fevereiro–abril): corta os ramos com tumores da tuberculose e aplica cobre logo a seguir à poda. Faz o mesmo depois de granizo ou de geada forte.
- Primavera e floração (abril–junho): é a segunda janela de cobre, que tem de acontecer antes de a flor abrir. Na floração, a atenção vai para a traça.
- Verão (junho–agosto): monta as armadilhas para a mosca e vigia a cochonilha-negra.
- Fim do verão e outono (agosto–outubro): é o pico da mosca e da gafa. Faz a apanha a tempo e tira a azeitona caída do chão.
Calendário de tratamentos da oliveira
| Época |
Problema a vigiar |
O que fazer |
| Depois da apanha (nov–dez) |
Olho-de-pavão, gafa, tuberculose (feridas do varejo e cicatrizes da queda da folha) |
Cobre em toda a copa, em dia seco, antes das chuvas fortes. Tira as azeitonas mumificadas da árvore e as do chão |
| Inverno (dez–fev) |
Olho-de-pavão (infeta com chuva e tempo ameno); traça na geração das folhas |
Observa as folhas. Repete o cobre só se o aviso da DRAP o indicar. A traça nas folhas raramente pede tratamento |
| Poda (fev–abr) |
Tuberculose (ronha); copa fechada, que abriga a cochonilha |
Corta os ramos com tumores, desinfeta a tesoura e poda em tempo seco. Aplica cobre logo a seguir e repete depois de granizo |
| Primavera e floração (abr–jun) |
Olho-de-pavão e gafa (com as chuvas de primavera); traça na geração das flores; psila ("algodão") |
Segunda janela de cobre, antes de a flor abrir, e nunca em plena flor. Contra a traça, Bacillus thuringiensis só se o aviso o indicar |
| Verão (jun–ago) |
Cochonilha-negra (as larvas estão a sair); primeiros voos da mosca; traça a entrar no fruto pequeno |
Armadilhas para a mosca. Óleo de verão contra a cochonilha na data do aviso. Rega sem exageros |
| Fim do verão e outono (ago–out) |
Mosca-da-azeitona (pico); gafa (com as primeiras chuvas); queda de frutos causada pela traça |
Captura em massa, caulino ou isco autorizado em modo biológico, conforme o aviso. Cobre contra a gafa antes das chuvas, respeitando o intervalo de segurança. Apanha atempada |
Os meses são intervalos. No Sul tudo se adianta umas semanas e em Trás-os-Montes e na Beira Interior tudo se atrasa. Quem diz o dia certo para a tua zona é a Estação de Avisos Agrícolas da DRAP, que publica circulares próprias para a oliveira.
Três regras valem para a tabela toda:
- A dose é a do rótulo. Vale para o cobre, para o óleo e para qualquer produto fitofarmacêutico. Usa só produtos autorizados para a oliveira e, se queres manter o quintal em modo de produção biológico, confirma que o produto também está autorizado nesse modo.
- O cobre não é para usar por rotina. Acumula-se no solo, e o modo biológico limita a quantidade que podes pôr por ano. Duas janelas bem feitas valem mais do que seis à pressa.
- Respeita o intervalo de segurança, que é o número de dias entre o tratamento e a apanha. Vem no rótulo e conta tanto para azeite como para azeitona de conservar.
Depois da apanha: o tratamento que mais conta
Porque é que o cobre depois da apanha é a peça-chave do ano? Há três razões que se juntam na mesma época:
- A árvore está cheia de feridas. O varejo parte raminhos, e as folhas que caem deixam pequenas cicatrizes. É por aí que entra a bactéria da tuberculose.
- Chegam as chuvas e o tempo ameno. São as condições de que o fungo do olho-de-pavão precisa para infetar as folhas.
- A gafa ainda está na árvore, escondida nas azeitonas secas que ficaram presas aos raminhos.
O cobre faz uma película protetora por cima das folhas e das feridas. Aplica-o logo que acabes a apanha, num dia seco, sem vento e sem chuva prevista para as horas seguintes, para que tenha tempo de secar e agarrar. Nas zonas frias, não trates em dia de geada.
Os problemas da oliveira, um a um
Como tratar a oliveira do olho de pavão
O que vês: manchas redondas, castanho-esverdeadas, na página de cima das folhas, muitas vezes com uma auréola amarela à volta. Parecem os "olhos" de uma pena de pavão. As folhas atacadas amarelecem e caem, e uma oliveira despida no fim do inverno dá pouca flor.
De onde vem: é um fungo (Spilocaea oleagina) que passa o ano nas folhas doentes que continuam na árvore. A chuva leva os esporos para as folhas sãs, e a infeção acontece com folha molhada e tempo ameno, ou seja, no outono, nos invernos suaves e na primavera. O calor seco do verão trava-o.
Como tratar: a doença previne-se, porque uma folha manchada já não se cura. Faz o cobre nas duas janelas (depois da apanha e antes da floração) e uma poda de arejamento, para a copa secar depressa depois da chuva. O cobre ainda faz cair as folhas já doentes. Parece mau, mas é bom: o fungo vai embora com elas.
Como tratar a gafa da oliveira
O que vês: manchas castanhas e afundadas na azeitona a amadurecer, às vezes com pontinhos cor de laranja, que são os esporos. A azeitona apodrece, seca e fica mumificada na árvore, e o azeite sai ácido.
De onde vem: é outro fungo (Colletotrichum) e não tem nada a ver com o olho-de-pavão. Passa de um ano para o outro nas azeitonas mumificadas que ficam presas na árvore e nos raminhos secos. Com as primeiras chuvas de outono, a água espalha os esporos para as azeitonas que estão a pintar. A Galega, a variedade tradicional do Centro, é das mais sensíveis.
Como tratar:
- Tira as múmias da árvore depois da apanha. Aqui sim, as azeitonas secas são a casa da doença.
- Aplica cobre preventivo antes das chuvas de outono (setembro–outubro), respeitando o intervalo de segurança, e na janela da primavera.
- Apanha cedo onde a gafa costuma aparecer e não deixes a azeitona madura à chuva.
Tuberculose (ronha): a doença das feridas
O que vês: tumores rugosos, do tamanho de uma ervilha a uma noz, nos raminhos e nos ramos. Os ramos mais atacados secam.
De onde vem: é uma bactéria (Pseudomonas savastanoi) que vive dentro dos tumores e se espalha com a chuva. Só entra por feridas: cortes de poda, varejo, granizo, rachas da geada e cicatrizes da queda da folha.
Como tratar: um tumor não tem cura, mas a doença trava-se.
- Corta os ramos com tumores um pouco abaixo do tumor e tira-os do quintal.
- Desinfeta a tesoura entre árvores e deixa as oliveiras doentes para o fim.
- Poda só em tempo seco e aplica cobre logo a seguir à poda. Repete depois de granizo ou de geada forte.
Mosca-da-azeitona
O que vês: uma picada minúscula na azeitona e, mais tarde, o buraco por onde sai o adulto. Por dentro, a larva come a polpa.
De onde vem: a mosca (Bactrocera oleae) passa o inverno como pupa, enterrada no solo e nas azeitonas caídas. Os dias muito quentes de julho e agosto abrandam-na. O perigo dispara quando o calor alivia e chegam as primeiras chuvas, em setembro e outubro. Os ataques são piores nos outonos amenos e húmidos.
Como tratar: nunca a trates por calendário. Primeiro vigia-a, depois decide.
- Monta armadilhas a partir de junho ou julho. Podes usar placas amarelas com feromona ou garrafas com um atrativo alimentar (segue as instruções da embalagem). Conta as moscas todas as semanas.
- Num quintal, várias garrafas por árvore (captura em massa) já baixam muito a população.
- O caulino, uma argila branca autorizada em modo biológico, faz uma película que afasta a mosca da azeitona. Se o aviso da DRAP indicar tratamento, há iscos com substâncias autorizadas em modo biológico.
- Apanha a tempo e recolhe a azeitona caída, que é onde a mosca vai passar o inverno.
Traça-da-oliveira
A traça (Prays oleae) é uma pequena borboleta com três gerações por ano, e cada uma ataca uma parte diferente da árvore:
- nas flores, na primavera;
- nos frutos, porque a lagarta entra na azeitona ainda pequena, em junho, e sai no fim do verão, o que faz cair frutos em setembro;
- nas folhas, no outono e no inverno, onde abre pequenas galerias.
Num quintal, a traça quase sempre se tolera. Uma armadilha de feromona mostra-te quando está a voar. Se o aviso o indicar, o Bacillus thuringiensis, um inseticida biológico, aplica-se na floração contra a geração das flores.
Cochonilha-negra e fumagina
O que vês: carapaças castanho-escuras a negras, em forma de capacete e com um "H" em relevo, nos raminhos e na página de baixo das folhas. Depois as folhas ficam cobertas de um pó preto, que é a fumagina.
De onde vem: a cochonilha (Saissetia oleae) suga a seiva e larga uma melada, um líquido açucarado. A fumagina é um fungo que vive dessa melada. Não ataca a planta, mas tapa a luz às folhas. As duas gostam de copa fechada, humidade, rega a mais e excesso de azoto.
Como tratar:
- A grande arma é a poda de arejamento.
- Deixa trabalhar os auxiliares, como as joaninhas e as pequenas vespas parasitas.
- Se o ataque for forte, aplica óleo de verão quando as larvas saem (no verão), na data do aviso e nunca nas horas de calor.
- A fumagina desaparece sozinha quando a cochonilha se vai. A chuva e o cobre das duas janelas ajudam a limpá-la.
O que precisas: um produto à base de cobre autorizado para a oliveira (calda bordalesa ou outro, de preferência autorizado em modo biológico), um pulverizador limpo, luvas, óculos, máscara e roupa comprida.
- Acaba a apanha e tira da árvore as azeitonas secas e os raminhos partidos ou mortos.
- Lê o rótulo com calma: dose, número de aplicações e intervalo de segurança.
- Vê o aviso da Estação de Avisos da tua DRAP, que diz se a época já chegou à tua zona.
- Escolhe o dia: seco, sem vento, sem chuva prevista para as horas seguintes e sem geada.
- Prepara só o que vais gastar nesse dia, na dose do rótulo.
- Molha a copa toda, por fora e por dentro, as folhas de cima e de baixo, até ficarem bem molhadas mas sem encharcar.
- Limpa o chão, sobretudo das azeitonas caídas, onde a mosca e a gafa passam o inverno.
- Lava o material e aponta a data num caderno.
- Marca na agenda o cobre depois da poda e a segunda janela, antes da floração.
Erros comuns a evitar
- Esperar pelas manchas para tratar. Quando aparecem, o olho-de-pavão já entrou.
- Deixar as azeitonas secas na árvore. É lá que a gafa passa o inverno.
- Tratar com cobre em plena floração. A janela da primavera é antes de a flor abrir.
- Podar com chuva, não desinfetar a tesoura ou esquecer o cobre a seguir. É o convite perfeito à tuberculose.
- Tratar a mosca por calendário em vez de olhar para as armadilhas.
- Cobre todos os meses "por via das dúvidas". Acumula-se no solo e não protege mais do que as janelas certas.
Calendário de tratamentos da oliveira, por região
Calendário de tratamentos da oliveira no Norte
Em Trás-os-Montes e no Douro, as geadas e o granizo abrem feridas, e é aí que entra a tuberculose. Depois de um temporal destes, aplica cobre logo que haja um dia seco. A apanha vai muitas vezes até dezembro ou janeiro, por isso o cobre pós-apanha faz-se no primeiro dia seco e sem geada. A poda fica para o fim da janela, entre março e abril. No Minho há poucas oliveiras, e a humidade faz do olho-de-pavão e da gafa o problema principal. Vê o calendário do Norte.
Calendário de tratamentos da oliveira no Centro
No litoral (Oeste e Beira Litoral) e no Ribatejo, a humidade dá força aos fungos. Onde houver Galega, aplica o cobre antes das primeiras chuvas de outono e não atrases a apanha. Na Beira Interior e nas zonas altas da Beira Baixa, o ritmo é o do Norte: geada, feridas, e cobre depois dela. Vê o calendário do Centro.
Calendário de tratamentos da oliveira no Sul (Alentejo e Algarve)
Aqui o calor do verão trava os fungos e abranda a mosca. O perigo vem quando chegam as primeiras chuvas de setembro e outubro, por isso põe as armadilhas cedo. Como a apanha começa mais cedo, o cobre pós-apanha também. Nas oliveiras regadas e com copa densa, atenção à cochonilha-negra e à fumagina. Nos fundos de vale húmidos, o olho-de-pavão aparece como no litoral. Vê o calendário do Sul.
Calendário de tratamentos da oliveira na Madeira
As oliveiras de quintal estão nas zonas baixas e quentes, que não têm geada (em altitude há geadas de inverno, mas aí quase não há oliveiras). O inimigo é a humidade, que favorece o olho-de-pavão e a gafa. Mantém as duas janelas de cobre e uma armadilha para vigiar a mosca. As datas vêm dos serviços regionais de agricultura. Vê o calendário da Madeira.
Calendário de tratamentos da oliveira nos Açores
A oliveira é rara e quase sempre serve para conservar. Com tanta humidade, o olho-de-pavão e a gafa mandam. O vento parte raminhos, e isso abre a porta à tuberculose, por isso aplica cobre depois dos temporais. Vê o calendário dos Açores.
Perguntas frequentes
Quando tratar as oliveiras com cobre?
Há duas janelas principais: depois da apanha (novembro–dezembro), antes das chuvas fortes, e na primavera, antes da floração. Pelo meio, aplica-o também logo a seguir à poda e depois de granizo ou de geada forte, para proteger as feridas. A data exata vem do aviso da tua DRAP e a dose vem do rótulo.
Como tratar o olho de pavão?
Com prevenção: cobre nas duas janelas (depois da apanha e antes da floração) e uma poda que areje a copa. As folhas já manchadas não se curam, mas o cobre ajuda a fazê-las cair e protege as folhas novas.
Como tratar algodão da oliveira?
O "algodão" é a psila, um pequeno inseto que se esconde numa espuma branca e cerosa nos cachos de flor, na primavera. Raramente faz estragos que justifiquem tratamento. Areja a copa e deixa as joaninhas trabalhar. Num ataque forte, chega um jato de água ou sabão potássico, segundo o rótulo.
Como tratar de uma oliveira pequena?
No primeiro verão, rega-a com regularidade, põe cobertura morta afastada do tronco e um tutor firme. Segue as mesmas janelas de cobre se vives numa zona húmida e vigia a cochonilha. Se ainda a vais plantar, lembra-te de que a oliveira se planta em vaso ou com torrão, nunca a raiz nua. Vês porquê no guia de plantar árvores de fruto.
A fumagina mata a oliveira?
Não diretamente. É um fungo que vive da melada da cochonilha e só tapa a luz às folhas. Controla a cochonilha com uma poda de arejamento e, se for preciso, óleo de verão, e a fumagina vai-se embora com a chuva.
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